Preciso começar este post informando – para quem ainda não sabe – que Craigh na Dun não existe! Foi um lugar inventado pela autora de Outlander. O círculo de pedras foi construído em isopor para as filmagens, em uma colina de Kinloch Rannoch, em Perthshire (e não em Inverness).
Aliás, se Craigh na Dun existisse mesmo, eu não estaria aqui escrevendo. A julgar pelo sucesso da série e pela quantidade de mulheres loucas para viajar no tempo e encontrar um highlander sósia do Jamie (já aviso que dentes perfeitos serão improváveis), eu estaria agora com uma banquinha montada lá, distribuindo senhas de acesso à pedra principal e fazendo fortuna vendendo antibióticos para as viajantes. Porque é sempre uma má ideia ir para o passado sem uns remedinhos modernos no bolso…
Enfim, vamos acabar de vez com essa ilusão: Craigh na Dun é fake.

Mas não se aflijam, pessoas desiludidas com o século XXI, porque existem centenas de outros círculos de pedra por toda a Escócia. E aye, existem muitos mistérios associados a eles. A ideia de viagem no tempo nesses locais não é nova. Histórias antigas falam em distorções perceptivas, perda de memória e acesso a outras dimensões. E afinal, se existem mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa filosofia, então por que não viajar no tempo?
No final de semana, eu estive na região de Aberdeenshire, que possui uma concentração de círculos de pedra fora do comum. São cerca de 175 registrados, mas como muitos foram destruídos com o tempo, restam uns 100 inteiros. Visitei um que se chama Tyrebagger, e fica perto de Aberdeen. Eu pretendia visitar outros, mas me deparei com alguns contratempos. Aliás, não espere vir para cá visitar círculos de pedra e encontrar uma ordem inglesa, com estacionamento perto ou placas indicando perfeitamente o local… Não, meus amigos, aqui na Terra dos Scots a coisa é na raça mesmo. Quer chegar no círculo? Prepare-se para aventuras.
Pra começar, Aberdeen me recebeu com essa temperatura:

Para chegar em Tyrebagger, eu primeiro tive que caminhar uns 30 minutos nessa estrada de chão meio congelada. O acesso de carro era proibido.

Então imaginem, caminhada no frio, beleza, faz bem pra pele (espero!). Aí tive que virar em outra estrada menor, e no final dela havia um portão fechado.

E aí eu pulei o portão, claro. E antes que vocês achem que isso foi errado da minha parte, saibam que na Escócia existe o chamado “direito de vagar”, que explicarei em outra ocasião, mas ele basicamente me autoriza a pular portões.
E eis que, voilà, le cercle de pierres:


Talvez eu seja apenas uma deslumbrada que acha tudo lindo (como já me disseram), mas gente, é lindoooo!!! Indescritível a emoção que sinto quando estou em lugares assim. A paz, o silêncio, e os 4.000 anos de existência ali, na minha frente. Mas eu tive que sair da minha contemplação arqueológica para fazer O TESTE. Teria este círculo o poder de me transportar no tempo? Minha mente científica quis saber. E eu tentei:


Toquei em todas as pedras, abracei algumas, só faltou me jogar no chão de joelhos, erguer as mãos para o céu e gritar “ME LEVEM!!” em gaélico, mas eu lembrei que estava sem antibióticos na bolsa e que também não falava gaélico, então deixei pra lá. Enfim, se a intenção é viajar no tempo, eu acabo de poupá-los de um esforço: podem tirar Tyrebagger da lista.
Um tempo atrás, eu visitei um outro local que dizem ter inspirado a autora de Outlander, porque fica perto de Inverness e é cheio de histórias estranhas. Se chama Clava Cairn, também tem cerca de 4.000 anos, e é na verdade uma coleção de círculos e de monumentos de pedra.



Esse é considerado um dos locais mais misteriosos da Escócia, com teorias que vão desde viagens por outras dimensões até abduções alienígenas. Muitos turistas também relatam sentir energias estranhas em Clava Cairn.
As histórias antigas dizem que esses locais são de propriedade do mundo espiritual, e que os espíritos se irritam com interferências humanas nos círculos. Um turista belga sentiu essa fúria de perto quando, ao visitar Clava Cairn, resolveu levar uma pedrinha para casa, como lembrança. Um tempo depois, o Escritório de Turismo de Inverness recebeu uma caixa com a pedra e uma carta anônima em que ele contava que a pedra havia amaldiçoado a sua vida e a sua família, em uma série de acontecimentos terríveis que teriam acontecido desde que ele pegou a pedra. Ele não tinha coragem de voltar a Clava Cairn para devolvê-la, e dizia, na carta, “Eu sei que vocês provavelmente estão rindo de mim, mas enquanto riem, vocês podem por favor colocar a pedra de volta no lugar?”
Ou seja, yo no creo en las brujas, pero si las hay, están en Escocia! Pode apostar!😉
Saiba mais:
BBC: As estranhas origens dos círculos de pedras (em inglês).
Notícia sobre o “turista amaldiçoado” de Clava Cairn (em inglês).
http://vidanaescocia.com.br/index.php/2016/05/07/circulos-de-pedras/