Se você era como eu era nos anos 90 (jovem e ignorante), provavelmente assistiu ao filme Coração Valente e tomou tudo como verdade histórica. Mesmo porque, na época em que o filme foi lançado, não tínhamos a internet à mão para conferir informações. No filme, o herói, William Wallace (vulgo Mel Gibson), foi traído por Robert the Bruce. Ele aparece, depois, super arrependido e coisa e tal, mas eu simplesmente não consegui gostar desse sujeito. Entrou no meu rol de vilões históricos.
Mas aí eu saí dos anos 90 (ainda bem!), e um dia me vi na Escócia, em Edimburgo, visitando o Castelo da cidade. E eis que percebo que, no portão principal, tem duas estátuas: a de William Wallace e a de Robert the Bruce. Os dois ali, de guardiões do castelo, de heróis da nação. Gente, mas como assim? Colocam o mocinho do lado do bandido, assim como iguais? Estariam os escoceses malucos em venerar esse sujeito traidor?

Intrigada, resolvi pesquisar a fundo em fontes mais confiáveis do que essas estátuas em castelos históricos (porque afinal, o que sabem eles de história, não é mesmo?). E eis que a verdade, meus amigos, é que quem traiu – a nossa confiança – foi o Mel, vulgo Gibson.
Sim, ele fez um dos melhores filmes sobre a Escócia ever, cujo sucesso desencadeou inclusive uma onda de interesse e turismo enorme no país, o chamado “efeito Braveheart” (como agora está ocorrendo o “efeito Outlander”). Mas ele não se preocupou muito em representar fielmente os fatos históricos. Então eu fiz uma lista dos erros mais gritantes, para que vocês não saiam por aí passando raiva do pobre Bruce como eu passei.
Erro histórico # 1: O verdadeiro Coração Valente
Pra começo de conversa, o nome do filme já é errado. “Brave Heart” era o apelido de Robert the Bruce, e não de Wallace. Pois é, o verdadeiro “Coração Valente” foi justamente o cara que aparece como um dos vilões do filme. William e suas conquistas o incentivaram a continuar lutando pela Escócia, mas foi por seus próprios méritos e persistência que ele finalmente conseguiu vencer os ingleses.
Diz a lenda que, depois de perder seis batalhas seguidas, Bruce teve que fugir e se esconder em uma caverna. Desanimado, abatido, pensou que sua jornada havia chegado ao fim. Mas sua atenção foi desviada para uma aranha que tentava fazer uma teia no teto na caverna. A aranha tentava e caía, tentava e caía, sem nunca desistir, e ele observou como, na sétima tentativa, ela conseguiu se prender e formar a teia. Robert então decidiu que tentaria até conseguir e, na sétima batalha, a de Bannockburn em 1314, venceu e se tornou o Rei Robert I da Escócia. Claro que essa lenda é tão suspeita quanto o filme, mas é bonitinha. 🙂

Erro histórico # 2: Origens de Wallace
Embora não se saiba realmente como foi a vida de William Wallace antes de ele se engajar nas lutas, historiadores duvidam muito que tenha tido uma infância e juventude humildes, no campo, como o filme retrata. Tudo indica que ele era da aristocracia escocesa da época, e que tenha sido nomeado cavalheiro antes da Batalha de Stirling, e não depois, como o filme mostra.

Erro histórico # 3: Primae Noctis pode nunca ter existido
A Primae Noctis é considerada uma lenda urbana histórica. Embora exista muita coisa escrita sobre isso, existem poucas evidências confiáveis de que tenha sido imposta em algum lugar. Com certeza não na Escócia da época de Wallace.

Erro histórico # 4: A esposa
A esposa de Wallace, na vida real, se chamava Marion. Mel Gibson optou por mudar o nome dela para Murrion para não ficar igual ao da Marion de Robin Hood. No filme, ele não quer saber de lutar e a morte dela faz com que se revolte e mude de ideia. Mas na verdade Wallace já era um rebelde antes, e a morte dela teria só o enfurecido mais.

Erro histórico # 5: Os escoceses não pintavam seus rostos para a batalha
Os antigos escoceses, pictos e celtas, pintavam seus rostos de azul para lutar contra os romanos, mas isso não era mais o costume na época em que se passa o filme. Claro que deu todo um toque bárbaro muito bem-vindo no filme, e aprovado até hoje, pois os escoceses atuais adoram pintar a bandeira da escócia (azul e branca) no rosto em eventos esportivos.

Erro histórico # 6: Batalha de Stirling
A famosa Batalha de Stirling foi na verdade a batalha da Ponte de Stirling. Na história real, os ingleses precisavam atravessar essa ponte estreita para atacar os escoceses, e conseguiam passar apenas aos poucos. William Wallace venceu a batalha porque os atacava assim que a atravessavam. Foi uma vitória contra uma tropa muito maior que a deles, e que virou o jogo positivamente na guerra de Independência Escocesa.

Erro histórico # 7: A traição
Robert the Bruce nunca traiu William Wallace. Na verdade, ele sequer estava na Batalha de Falkirk. Ele era, sim, um grande político, e provavelmente jogou cartas duplas por um tempo, mas embora não apoiasse Wallace abertamente nas batalhas iniciais, também nunca o traiu. Uma coisa certa que o filme mostrou foi que o pai de Bruce tinha mesmo lepra, e era leal ao Rei da Inglaterra.

Erro histórico # 8: Isabelle da França nunca conheceu William Wallace
Isabelle era mesmo noiva do príncipe Edward, mas na época das batalhas de William, ela tinha apenas 4 anos de idade e estava na França. Isso obviamente significa que todo o papel dela no filme é pura ficção: ela nunca o informou sobre os movimentos das tropas inglesas, nunca teve um caso com ele e etcs.

Erro histórico # 9: Phillip nunca foi arremessado pela janela
No filme, o rei inglês empurra da janela Phillip, o amante de seu filho e futuro rei. Existiu um Phillip na vida real, que era assessor de Edward II e com quem se acreditava que ele talvez tivesse um romance. Mas nada comprovado historicamente, apenas fofocas daqueles tempos e que foram aproveitadas pelo filme. O toque trágico da janela deve ter sido um recurso para deixar o público com mais raiva ainda de Edward I, o rei da Inglaterra.

Erro histórico # 10: A Batalha de Falkirk
Como no filme, o rei da Inglaterra estava mesmo presente nessa batalha, e ele utilizava regularmente tropas galesas e irlandesas nos combates, mas é difícil acreditar que, no meio da briga, os escoceses e irlandeses tenham se cumprimentado alegremente. O que o filme não mostra é que a batalha foi perdida principalmente por causa dos arqueiros galeses, que possuiam arcos com uma tecnologia superior e conseguiam atirar muito mais longe que os escoceses (alguns dos quais tinham apenas estilingues).
Erro histórico # 11: Enforcado, esquartejado, exposto
O retrato da execução de William Wallace foi suavizado no filme. Em “Coração Valente”, ele aparece sendo pendurado, torturado e grita “Freedom!!!’ logo antes de ter sua cabeça decapitada. Na vida real, Wallace sofreu uma punição cruel de 5 estágios em que a vítima era sufocada, depois cortada para que seus intestinos ficassem expostos, castrado, cortado em pedaços e finalmente decapitado. Suas últimas palavras são desconhecidas. O filme também conta que suas partes foram expostas nos 4 cantos da Inglaterra. Isso é verdade. Aqueles tempos eram brutais demais para nossas cabeças modernas, e talvez por isso o filme tenha resolvido mostrar as coisas de uma maneira menos sangrenta.

Claro que os erros não param por aí, mas esses são os mais importantes para conseguir separar o William Wallace do filme do Wallace real. Esse tipo de apropriação histórica é bastante normal em filmes de época, e completamente perdoável. Principalmente quando se enche a tela com paisagens deslumbrantes, música de gaita de foles e homens de kilt (e a gente finge que acredita que eles tinham dentes perfeitos no século XIV). ❤️