Quando pensamos em Escócia, é quase impossível não imaginar castelos. Afinal, existem cerca de 3.000 deles espalhados pela paisagem. Desses, cerca de 1.500 ainda estão de pé, e centenas podem ser visitados.

Mas poucas pessoas já ouviram falar de um outro tipo de moradia fortificada, muito mais antiga, que também pode ser encontrada às centenas por aqui: os “brochs”. 

Construídos pelos povos da Idade do Ferro, essas enormes torres circulares surgiram principalmente no norte e oeste da Escócia entre aproximadamente 400 a.C. e 100 d.C., tornando-se uma das formas arquitetônicas mais extraordinárias da Europa pré-histórica.

À primeira vista, um broch pode parecer apenas um monte de pedras, principalmente se já estiver bastante em ruínas. Mas basta observá-lo com mais atenção para perceber que ali existia uma engenharia surpreendentemente sofisticada.

As paredes podiam atingir até cinco metros de espessura. Em seu interior havia um corredor circular com escadas embutidas, galerias construídas entre as paredes duplas e vários pavimentos de madeira. Embora os telhados e os pisos tenham desaparecido há muito tempo, as evidências arqueológicas mostram que essas construções podiam ultrapassar dez metros de altura.

O mais impressionante é que tudo isso foi construído sem argamassa. As pedras eram cuidadosamente selecionadas e encaixadas umas nas outras, formando estruturas capazes de permanecer de pé por mais de dois mil anos.

Quem vivia nos brochs?

Essa é uma pergunta que continua sendo debatida pelos arqueólogos.

Durante muito tempo acreditou-se que cada broch fosse a residência de um chefe local e sua família. Hoje, a interpretação é mais cautelosa. Dependendo do sítio arqueológico, eles podem ter abrigado uma família extensa, várias famílias aparentadas ou um grupo doméstico mais amplo, formado também por dependentes e trabalhadores.

Também não existe consenso sobre sua função.

É provável que fossem, ao mesmo tempo, residências, símbolos de poder e estruturas defensivas. Sua imponência certamente transmitia autoridade, enquanto sua posição estratégica permitia controlar o território ao redor. Assim como os castelos medievais fariam mais de mil anos depois, os brochs combinavam funções práticas, sociais e políticas em uma única construção.

Muito mais do que ruínas

É tentador olhar para um broch e enxergar apenas uma torre em ruínas (aliás, mais uma?! Qual a graça?).

Mas é aí que a arqueologia “entra no chat” para nos contar o que sabe e o lugar começa a ficar mais interessante. Ela nos ensina que uma pilha de pedras nunca é apenas uma pilha de pedras. Cada camada de ocupação, cada fragmento de cerâmica, cada osso de animal, cada ferramenta e cada alteração na arquitetura registram pequenas escolhas feitas por pessoas que viveram ali.

Os construtores dos brochs praticamente não nos deixaram documentos escritos. Mesmo assim, conseguimos reconstruir aspectos de sua alimentação, de suas técnicas construtivas, de suas relações sociais, do comércio que mantinham e até de como modificavam suas casas ao longo das gerações.

Acho que a diferença entre quem vê “graça” em monumentos assim e quem não os acha tão interessantes está não só no tanto de informação e contexto que se tem mas também na capacidade de imaginar como o local já foi, de lembrar que pessoas como nós, com sonhos, amores e temores, viveram ali. E que esse lugar moldou não só o que elas pensavam e sentiam mas também, de maneiras que muitas vezes nem percebemos, o mundo em que vivemos.

Eu adoraria que mais pessoas me pedissem para incluir locais assim nos meus tours. Sempre que um roteiro passa perto de algum lugar antigo, eu informo e sugiro como opção. A maioria das pessoas acaba preferindo visitar apenas castelos que, sim, são lindos, mas, perto dos brochs, ainda cheiram a tinta! 

Fontes:
  • Historic Environment Scotland – “Brochs⁠”
  • Ian Armit. Brochs and the Atlantic Scottish Iron Age. Edinburgh University Press, 2003.
  • Parker Pearson, Sharples & Mulville (1996). “Brochs and Iron Age Society: A Reappraisal”. Antiquity⁠
  • Romankiewicz, T. (2016). “Land, Stone, Trees, Identity, Ambition: the Building Blocks of Brochs”. Archaeological Journal.⁠