Existem vários lugares assim espalhados pelas Ilhas Britânicas. Aqui na Escócia, muitos deles são conhecidos como clootie wells.

Durante milhares de anos, nascentes deviam parecer algo extraordinário, quase mágico. Uma fonte de água limpa que surgia aparentemente do nada e brotava continuamente da terra, nutrindo pessoas, animais e plantações.

Talvez por isso, esses lugares tenham sido vistos como um presente do mundo divino, e acabaram adquirindo significados sagrados. Antes associadas a  deuses ou espíritos da natureza, passaram a ser associados a santos e santas, após o cristianismo. Mas o simbolismo desses poços sagrados como locais de cura permaneceu o mesmo ao longo dos séculos. 

Em alguns desses lugares surgiu também a tradição dos clooties. Um pequeno pedaço de tecido era molhado na água da fonte, passado sobre a parte do corpo que precisava ser curada e depois amarrado a uma árvore próxima. Acreditava-se que, à medida que o tecido se desfizesse naturalmente, a doença também desapareceria.

Até hoje, quem visita alguns clootie wells na Escócia encontra árvores cobertas por pedaços de tecido deixados por pessoas que continuam repetindo, seja por fé, tradição ou simplesmente pela participação no ritual, um costume que atravessou o tempo.

Tem uma parte dessa tradição, porém, que me incomoda bastante.

Originalmente, os clooties eram pequenos pedaços de materiais naturais, justamente porque precisavam se decompor. Afinal, parte do próprio significado do ritual estava na ideia de que, à medida que o tecido desaparecesse, também desapareceria aquilo que se queria curar.

Hoje, com a popularização desses lugares e o aumento de visitantes, é comum encontrar muito mais do que pequenos pedaços de pano. Na última vez em que visitei um clootie well, fiquei realmente triste com a quantidade de tecidos sintéticos e objetos de plástico, borracha, sapatos e outras coisas penduradas nas árvores que não têm relação alguma com a prática original e simplesmente permanecerão ali como lixo.

E existe uma certa ironia nisso. Alguém pode chegar ali, amarrar qualquer objeto numa árvore e imaginar que está participando de uma tradição antiga. Mas acaba fazendo o contrário: transforma uma prática baseada no desaparecimento natural daquele tecido em algo que permanecerá poluindo o lugar.

Preservar uma tradição não é apenas reproduzir sua aparência. É também entender o seu significado.