A maioria das pessoas, quando pensa na Escócia, imagina logo as Highlands. Aquelas paisagens com picos nevados, vales, lagos, e os scots correndo de saias pelas montanhas ao som de gaita de foles, como se fizesse sempre calorosos 15 graus.
Hollywood ajudou bastante nessa visão:
Mas eu percebo que existe uma certa confusão sobre as Highlands. Todo mundo sabe que é um lugar lindo, todo mundo quer ir, mas nem todo mundo entende o que realmente é.
Geografia:
As Highlands, como o nome já diz, são as Terras Altas da Escócia, ou seja, a região montanhosa do país, basicamente. Se vocês olharem pelo Google Earth, vão conseguir perceber como o relevo muda. E digo “basicamente” porque algumas regiões não montanhosas também entram no balaio das Highlands por estarem inseridas no que chamamos de cultura highlander.

Aqui na Escócia, quase sempre, quando se fala dessa região, se inclui também as ilhas do oeste e do norte (“The Highlands and the Islands”). O resto do país fica nas chamadas Lowlands (Terras Baixas), onde também está a maior parte da população.
História:
Parte dessa divisão entre as terras altas e baixas também é histórica. Antigamente, as Highlands eram habitadas pelos gaélicos, um povo celta que veio da Irlanda, e pelos Pictos, que já estavam ali há tempos. As Lowlands eram habitadas pelos Scots, e depois pelos britânicos e anglos. Na verdade, a Escócia é um caldeirão de povos, e explicarei isso melhor em outro post. Por agora, o importante é só saber que, por causa dessa divisão, a cultura e a língua gaélica eram a regra por lá.
As Highlands sempre foram um local de resistência, de povos “bárbaros”. Os romanos nunca conseguiram invadi-la, os vikings estavam sempre aqui e ali mas se integrando aos locais, e os ingleses, apesar de séculos de brigas, avanços e domínio, só conseguiram controlar a região de fato depois da Batalha de Culloden, em 1746. E conseguiram isso porque perceberam que teriam que domar também a cultura local, ou seja, forçar os highlanders a adotarem os costumes deles e a falarem inglês. O Ato de 1746 proibiu o gaélico, o kilt, o tartan, a gaita de foles e outros elementos da cultura local.
Antes de continuar, quero comentar que, embora seja inevitável, nesse contexto, a gente perceber os ingleses como vilões, existe também o outro lado: os escoceses jacobitas (apoiadores do Rei James) haviam se rebelado e quase conseguiram chegar até Londres e derrubar o rei deles. Na estratégia política da época, essas proibições eram tanto uma maneira de punir os envolvidos quanto de prevenir novas rebeliões. Também é importante lembrar que a Inglaterra se via ameaçada de todos os lados: por escoceses, irlandeses, franceses. Parecia urgente controlar pelo menos os que estavam na mesma ilha. Eu tenho uma queda enorme pela Escócia em tudo, confesso, e sempre me pego tomando lados mas sei que, na História, não existem vilões nem mocinhos. Existem circunstâncias, fatos, e consequências.
Quem desobedecesse as proibições era punido com extradição para as colônias (EUA, Austrália e Canadá, principalmente). As terras dos chefes dos clãs também foram desapropriadas e divididas, dando fim ao sistema quase feudal que ainda existia ali e enfraquecendo o poder deles. Como consequência, muitos escoceses acabaram sendo despejados e viram as terras em que moravam há séculos sendo ocupadas por ovelhas (não culpem as ovelhas, elas são lindas! 😍). A saída era se mudar para as Lowlands, onde haviam empregos em fábricas ou tentar a vida nas colônias. As proibições terminaram em 1782, mas as redistribuições de terras causaram as chamadas Highland Clearances, ou seja, um esvaziamento das Highlands. A população diminuiu em mais de 60% em menos de um século. E a língua gaélica quase desapareceu do dia-a-dia, sendo hoje mais falada nas ilhas.
A região passou muito tempo sendo vista como um lugar inóspito, frio, cheio de gente rústica e de modos estranhos, enfim, sem nenhum atrativo. Até que uma inglesa (embora com sangue escocês também) resgatou a glória das Highlands. A Rainha Vitória se apaixonou pela região e pela cultura local, e espalhou seu encanto pelo Reino.

O tartan virou moda na alta sociedade londrina, assim como o kilt, a gaita de foles e outros elementos da cultura escocesa. Ser highlander virou tendência, virou cool.
A Rainha Vitória amava tanto a região que construiu um castelo para passar todo seu tempo livre, o Balmoral. Ele ainda é refúgio da família real e o lugar favorito da Rainha Elizabeth II, que sempre que pode vem pra cá curtir uma paz highlander.


O Balmoral fica aberto para visitação quando os reais não estão por lá. Já estive lá, pode-se visitar todo o jardim, arredores e alguns cômodos, como salão de festas e sala de jantar.

Turismo:
Tem muitos lugares legais para se visitar nas Highlands. Como já deu pra entender, a região é grande, mas a maioria dos turistas faz um roteiro que inclui o famoso Lago Ness e arredores, passando por vilinhas típicas e destilarias pelo caminho. Glencoe também é parada obrigatória, na minha opinião. A formação geológica é impressionante, e ali perto também fica o Ben Nevis, a montanha mais alta das Ilhas Britânicas. Existem centenas de tours disponíveis, com saídas de Edimburgo, e você pode deixar pra escolher quando já estiver aqui, porque as saídas são frequentes e tem bastante opção tanto de roteiro quanto de quantidade de dias.

Um passeio pelas Highlands pode ser de 1 ou mais dias. Eu sempre recomendo pelo menos 2, porque embora a Escócia seja pequena e tudo seja perto (pelo menos pra quem está acostumado com distâncias do Brasil), tem muita coisa pra ver, e se fizer um tour do tipo bate-volta (tem vários assim), acaba-se passando mais tempo dentro de uma van do que passeando mesmo.






Quem tem mais tempo pode ir além do Lago Ness, e um destino comum é a Ilha de Skye, um dos lugares mais lindos da Escócia, segundo dizem. Lá perto fica o Eileen Donan, o segundo castelo mais fotografado da Escócia (o primeiro é o de Edimburgo).


Quem tem mais tempo ainda, pode se aventurar pelas outras ilhas, como Orkney, Lewis e Shetland, todas com paisagens deslumbrantes e muita história antiga.




No norte do país, existe uma rodovia que contorna o litoral, e que eles consideram a Rota 66 deles:
Como deu pra perceber pelo tamanho deste post, muita coisa pode ser dita sobre as Highlands. De modo geral, espere muitos lagos, muitas montanhas, muitos vales e ruínas. Espere também encontrar estradas fechadas, durante o inverno, dependendo do tempo. Ou abertas, mas exigindo muita paciência e cuidado dos motoristas.

A Escócia tem um clima bastante ameno, apesar da alta latitude, então se você quiser ver neve com certeza, esse é o lugar. Sempre tem neve, em algum lugar.


Espere encontrar muitas paisagens desertas. Essa região ainda é pouco povoada. Paz, aqui, não falta.

Também espere encontrar bastante desses sujeitos:


E muitas dessas, as principais habitantes das Highlands (de toda a Escócia, na verdade):

Não espere encontrar sinal 4G, nem lugares abertos até tarde. Espere encontrar pessoas simpáticas, e também espere talvez não entender bem o que elas falam. Mas parecem simpáticas, isso que importa.
E, claro, você até pode encontrar homens de kilt andando pelas montanhas no inverno, mas os escoceses modernos são espertos e colocam luvas e um casaco bem quente, pra compensar as pernas de fora:
