As pessoas pensam que a Escócia é fria. Ok, não serve pra quente, justo, mas não é tão fria quanto outros países que estão na mesma latitude, como a Dinamarca, a Letônia e o Canadá. Vários outros lugares mais ao sul, como Áustria, Alemanha, Polônia e Estados Unidos têm invernos bem mais rigorosos e com muito mais neve.

Ou seja: a Escócia é quente demais para o lugar onde ela está no mapa. E o que explica isso é a tal Corrente do Golfo. Ela vem lá do México, onde passa um tempo sob o sol de Acapulco, se aquecendo e depois resolve subir pelo Atlântico e agraciar as Ilhas Britânicas com a sua presença quentinha e generosa, lutando contra as águas frias que descem do norte. Apesar das boas intenções, ela não consegue esquentar tanto assim essas bandas, que passam longe de ser tropicais mas acabam ficando desse jeito “nada quente mas também nada congelante”. Sempre frio pero no mucho. Invernos amenos, com mais chuva e gelo que neve. Aliás, se seu objetivo de férias for ver neve e esquiar, alguns destinos mais ao sul, como os Alpes, são muito melhores para isso.

As temperaturas médias da Escócia ficam em torno de 3 graus no inverno e 16 graus no verão. Ou seja, a variação, aqui, é menor durante o ano todo do que durante uma semana típica de outono em Florianópolis, por exemplo (eu lembro bem! #traumas). Mas os escoceses gostam de se iludir e pensar que existe uma variação suficiente de temperatura para justificar o uso de “roupas de inverno” e “roupas de verão”. E eles se vestem mais de acordo com o calendário que de acordo com as temperaturas. Assim que chega a primavera, já começa a aparecer um monte de pessoas com roupas primaveris, mesmo que o frio ainda seja invernal.

Existem outras pequenas regras de comportamento ligadas ao clima que ninguém aprende de fato, mas todo mundo parece seguir. Se você não quiser se destacar como um completo estrangeiro recém-chegado de terras mais cálidas e gentis, deve seguir os seguintes preceitos culturais climáticos: 

Regras gerais:

  • Guarda-chuva é para turistas. Faça como os locais e use apenas o capuz da jaqueta impermeável que você, provavelmente, vai usar todos os dias. A chuva daqui é quase sempre fininha, e fica indo e vindo. E o guarda-chuva nem dura muito no vento. 
  • Proibido reclamar do frio. Pode – e deve! – reclamar do tempo: do vento, da chuva, etc. Mas sempre que alguém perguntar se você está com frio, diga que não. Se a pessoa que perguntou for estrangeira, vá mais longe: diga que, inclusive, está com calor, e tire uma camada de roupa.
  • Vista-se como uma cebola. Camadas salvam! E você vai botando e tirando roupas na medida doida em que o tempo vai mudando. “Não existe clima ruim, só roupa errada.”
  • Ignore a previsão do tempo. Eu nem olho mais. Não cancele nenhum plano porque a previsão é de chuva. Até porque, via de regra, daqui a pouco a chuva passa, e sai o sol, e o processo se repete outras tantas vezes – Welcome to Scotland!
  • Comece qualquer conversa falando sobre o tempo. Não importa a estação, o assunto inicial de qualquer conversa aqui é o tempo. Já saia de casa pensando no seu comentário do dia. 

Em cada estação:

 

Inverno

Temperaturas médias: 4 a 7°C

A primeira lição é aceitar a escuridão. O sol, nessa época, se comporta feito adolescente em final de semana: acorda tarde, almoça, meio mal-humorado, se arrasta um pouco pela sala e logo some, sem dar satisfação. Isso significa que boa parte da vida acontece no escuro, durante esses meses. O dia parece durar umas três ou quatro horas. No resto do tempo, você vive em uma versão escocesa de Gotham City. Você também engorda porque seu cérebro acha que estrelas lá fora significam que é hora de jantar, mesmo que o relógio diga que ainda são 4 da tarde. Mas tudo bem engordar, porque seus quilos a mais estarão escondidos sob um grande casaco acolchoado que vai ser usado quase o inverno inteiro — e que vai esconder também o pijama que você ainda estará usando, depois de acordar tarde demais e precisar correr para levar as crianças para a escola!

Reserve um tempo extra para botar e tirar gorro, luvas, cachecol e casaco toda vez que entrar em ou sair de qualquer lugar. Aliás, é a preguiça de ficar repetindo essa ação várias vezes por dia que faz com que muitos locais pareçam não sentir frio. Eles até sentem, mas preferem nem botar essas roupas todas quando sabem que logo já chegarão em um lugar mais quentinho. Mas eu preciso do casaco para esconder o pijama e do gorro para disfarçar o cabelo desarrumado (economias de minutos no meu precioso tempo) então acabo é passando calor em lugares fechados.

Outra vantagem de estar embrulhada em um edredom vestível o inverno inteiro é que ele amortece as quedas. Andar pelas ruas no gelo é algo que sempre acrescenta uma emoção na vida: você nunca sabe se vai conseguir caminhar como uma pessoa normal ou se vai ser obrigada a executar uma coreografia amadora de patinação artística que termina com você se estatelando no chão. Sapatos antiderrapantes são obrigatórios mesmo que não garantam a segurança nem a dignidade nessas horas. Depois vem a neve, que é a nossa chance de se sentir em um filme, por um tempo. Só que na maior parte do país, infelizmente, neva pouco (a não ser que ocorra algum evento climático pontual). Mas mesmo quando neva mais, e a gente tem uns dias de lindeza branca e fofa, ela acaba virando uma coleção de montinhos de lama que vão condensando em blocos e ficando lisos feito sabão. E assim retornamos à rotina de coreografias deslizantes e tombos constrangedores nas calçadas. Pelo menos, no escuro, ninguém vê. 

 

Primavera 

Temperaturas médias: 7 a 12°C

 É no primeiro dia de sol da primavera que a gente percebe o quanto o inverno estava nos afetando. Todo mundo se sente como o Drácula saindo do seu caixão depois de mil anos de cochilo. Com a diferença de que todos querem ficar ao sol. Os dias ficam mais longos, as flores começam a aparecer, e a população se comporta como se tivesse saído de um longo coma coletivo. Os casacões saem de cena e entram os vestidinhos floridos, mesmo que as temperaturas ainda estejam baixas, porque muitas pessoas seguem aquela regra já mencionada anteriormente: ignore o termômetro e vista-se de acordo com o calendário. Se já for primavera, então ela precisa ser vivida e aproveitada adequadamente: com roupas mais leves, piqueniques nos parques, cafés ao ar livre e, se chegar a 12°C em um dia ensolarado, começar a comentar que “está bem quente para a época” e que “o verão provavelmente será terrível”. 

Mas, para temperar esse retorno triunfal do sol e da alegria de viver, chega a vingança do pólen. A cada primavera, metade do país entra em guerra contra a famosa hay fever (conhecida, no Brasil, como rinite alérgica): olhos irritados, narizes em rebelião, espirros em série. É o preço que se paga pela beleza das flores e das ovelhinhas que nascem nessa época e derretem nossos corações com seus saltinhos pelos campos. Que nem sempre conseguimos ver por causa da conjuntivite da hay fever.

 

Verão

Temperaturas médias: 12 a 19°C.

Se no inverno tínhamos que aceitar a escuridão, no verão o dia parece não acabar nunca: o sol se recusa a ir embora, e às 22h ainda parece metade da tarde. Essa abundância de sol pode ser maravilhosa: você sai do trabalho e ainda tem horas de luz para aproveitar. O problema é quando você tem filhos pequenos e precisa fazê-los entender que, sim, já é noite, mesmo que ainda pareça dia. Ou melhor, que ainda é dia mas já é hora de dormir. E que não é para pularem da cama assim que os primeiros raios de sol — às 3 da manhã! — encostarem na janela. 

Mas confesso que dormir parece mesmo um desperdício com tantos dias lindos lá fora! O comportamento adequado é fazer valer cada minuto: pernas de fora reluzindo sua brancura na luz solar, churrascos portáteis em praias de pedra, banhos de sol nos parques, trilhas nas florestas e banhos de lago. Mesmo que esteja frio, se tiver sol, a gente tem que espalhar o corpo em qualquer superfície plana e passar um tempo absorvendo os raios solares, já que não conseguimos armazenar sol em garrafas para o inverno. Se estiver mais de 15°C, para os homens, é hora de “taps aff” (tops off), ou seja, tirar a camiseta e ficar só de bermuda, como se estivessem em Ibiza. Acho que isso é parte exagero e parte exibição para chocar os turistas que estão andando encasacados por aí. Mas se estiver acima de 20°C, até eu fico com vontade de aderir ao taps aff. E o calor é real: por causa da latitude e das muitas horas de exposição solar, somadas à arquitetura feita para reter o calor, ao chegar a essa temperatura ou mais, com sol, a sensação é semelhante a de uns 38 graus do Brasil. E o problema é que ar-condicionado aqui é algo tão raro quanto um castelo sem fantasma. Então o jeito é acabar com os estoques de ventiladores dos mercados e esperar pela próxima chuva, que nunca está mesmo muito distante. 

Outono

Temperaturas médias: 7 a 11°C.

O outono é a estação mais fotogênica, mas também a mais traiçoeira. As árvores se vestem de tons de vermelho e dourado, e você pensa que está vivendo dentro de uma pintura romântica. Até que um vento forte vira seu guarda-chuva ao contrário e enche seu casaco de folhas molhadas, e de repente você está mais para comédia pastelão do que para paisagem de cartão-postal (por isso é bom seguir a regra de não usar guarda-chuvas!).

Há uma certa beleza nos dias que vão ficando mais curtos e mais escuros: um ar de aconchego, de velas acesas em casa, de chocolates quentes, cobertores, tortas de maçãs e lareiras acesas.  Época de Halloween, festivais de colheitas e contagem regressiva para o Natal, com todo mundo se apavorando com o quanto o ano passou rápido! É também a estação em que o guarda-roupa inteiro entra em rotação, porque pode fazer as quatro estações em um mesmo dia, e você nunca sabe se deve se vestir para um passeio no campo ou para uma expedição polar. O consolo é que esse dilema do que vestir dura pouco porque logo chega o inverno e você pode voltar para o familiar combo pijama + casacão. Logo também fica escuro demais para alguém reparar em qualquer coisa. Mas, se repararem, faça como o clima escocês: não ligue para o que pensam e não corresponda a nenhuma expectativa.