Ganhei de presente uma experiência na Macallan que se chama “THE MACALLAN MASTERY EXPERIENCE”. São cerca de 5 horas de duração, nas quais se faz um tour que é uma imersão na história e excelência artesanal da destilaria, combinado com um almoço no restaurante deles (o Time Spirit recomendado pelo Guia Michelin e criado em colaboração com os irmãos Roca, do três-estrelas El Celler de Can Roca). Tudo acompanhado de muito (muito!) whisky.
Eu nem bebo whisky. Mas fui, fiz, e estou aqui para contar:
O primeiro detalhe sobre a Macallan é que, se você não sabe para onde está indo, pode até achar que entrou sem querer em um portal para um mundo de Tolkien, ou errou o caminho e foi parar em uma ecovila.

A arquitetura da nova destilaria, de 2018, foi concebida para se integrar à paisagem, com uma cobertura ondulada e revestida de vegetação que acompanha as formas das colinas ao redor.



Logo na chegada, já oferecem um whisky, que esqueci qual era porque não bebi.
Se você estiver dirigindo, e quiser visitar uma destilaria, NUNCA beba. É o óbvio ululante mas, em tempos de brain rot, não custa repetir. A tolerância aqui é zero para beber e dirigir, como aliás deveria ser no mundo todo. Por isso, todas as destilarias oferecem o tal do driver’s kit, que é, como o nome diz, um kit com garrafinhas de todos os whiskies da degustação, para você levar para casa/hotel/onde estiver e degustar quando não for mais dirigir, tranquilo, com um petisquinho se quiser. Muito melhor, não?
E se você, como eu, além de estar dirigindo também nem gostar de whisky, peça o driver’s kit igual e depois dê de presente para alguém que goste. Afinal, todo esse líquido precioso está incluído no valor da experiência.
Enfim, voltemos. Com um primeiro whisky em mãos (uma soda no meu caso) nosso grupo acompanhou a guia pelos corredores da Macallan enquanto ela nos contava a história da destilaria.

Eu gostei especialmente da parte em que uma mulher assumiu a destilaria, em uma época em que não era “apropriado” para mulheres fazerem qualquer coisa que não fosse ficar com a barriga no fogão ou a bunda no sofá (se tivessem a sorte de nascerem ricas).

E a Dona Janet, que já ganhou ainda mais pontos comigo pelo retrato com o cachorro, mostrou com quantos barris se constrói um império e arremessou a Macallan a altitudes inéditas. Sob seu comando, uma garrafa de whisky da Macallan se tornou a garrafa mais valiosa do mundo a ser vendida em leilão.

Dizem que a pessoa que pagou os 628 mil dólares por essa garrafa de 6 litros (exclusiva, porque claro que a maioria das garrafas são bem menores) a levou para o hotel em que estava, lá em Hong Kong, convidou um bando de amigos e tomaram tudo na mesma noite.


Teve também um vídeo super bacana explicando como os barris são feitos. O controle de qualidade começa já na escolha das árvores. Desde esse primeiro “check” até o whisky parar no copo de alguém, são mais de 600 verificações de qualidade (deve ser a empresa que mais contrata virginianos no mundo).
Mas vamos ao almoço, que para mim foi o ponto alto. Os outros já tinham bebido uns 3 whiskies e estavam até esquecendo de comer mas quem já estava sentindo tonturas era eu, a manhã toda ali só com aquela sodinha.
O primeiro prato foi inspirado em uma coleção da Macallan que fez whiskies inspirados em cidades do mundo. Tinha aperitivos inspirados no México, em New York e na Escócia. O do México era um pequeno taco com geleia de manga e guacamole; o de New York era um burguer de pastrami e xucrute; e o da Escócia era um folhadinho de fish and chips.

Cada prato era pareado com uma bebida diferente. Uns com whiskies, outros com xerezes e coquetéis. Para mim, sodinhas e água da torneira (ninguém mandou!).
O segundo prato foi com vegetais. Tinha uma espécie de sorvetinho de beterraba que era uma delícia:

Como podem perceber, os pratos, na verdade, não tinham pratos. Tudo era servido em pedras e conchas. Fiquei na dúvida se era algo chique e tendência (devo jogar meus pratos fora?) ou se a destilaria anda passando por dificuldades financeiras, porque as porções diminutas pareciam um esforço de racionamento de alimentos. Deve ser a primeira opção, mas senti pena por uns segundos.
O terceiro prato foi servido em uma conchinha catada da beira do rio Spey, e foi descrito como “um whisky comestível”. Era cevada fermentada com levedura caramelizada e biscoito de cevada com levedura. Se acrescentar água e jogar no alambique, pode ser que vire whisky mesmo. Achei surpreendentemente bom!

Já estávamos na metade do almoço e acho que não havíamos comido nem 100g de comida ainda, então comecei a me preocupar. Teria eu que passar em um MacDonald’s depois do almoço?
O quarto prato foi lagosta:

Outra porção minúscula, porque ter fome é definitivamente coisa de pobre.
O quinto prato foi carne de cervo cercado por umas bolotinhas “surpresa” porque cada uma tinha um sabor diferente: maçã, amendoim, laranja, etcs. Comi apenas as bolotinhas, porque mesmo com fome eu não como cervos. Nem quando a comida finalmente chega em um prato.

E o último prato, a sobremesa, era algo com doce de leite e sorvete. Era bom, mas confesso que me decepcionei porque eu esperava que um almoço de uma experiência em uma destilaria servisse alguma sobremesa com whisky. Tem tantas: cranachan, whisky cake, sorvete de whisky, ou mesmo algo com calda de chocolate e whisky ou fudge de whisky. Enfim, fica a dica para a Macallan (que jamais lerá esse post, então fica a dica no ar mesmo).

Depois do almoço, a guia voltou para nos buscar, então não deu para correr para a lanchonete mais próxima. Mas, para falar a verdade, o espaço de tempo entre cada prato minúsculo era tão grande que deu tempo de o cérebro se convencer que era suficiente, e foi realmente suficiente (é comprovado que comer devagar tem esse mesmo efeito, por isso é recomendado).
Ela nos levou em mais alguns lugares especiais, e disse que um deles era super secreto então vou mostrar aqui para toda a internet ver:

Nesse local secreto futurístico está a garrafa feita especialmente para comemorar os não-lembro-quantos anos do “007 – Diamonds are forever”

No final, ganhei uma sacolinha com copos e uma caixinha com os whiskies da degustação (o driver’s kit). Um deles, o de 30 anos, custa 4700 libras por garrafa. Calculei que só essa dose que nos deram custa, então, mais de 180 libras. Fora as doses dos outros, que custam menos mas que foram muitos. Fora os xerezes e sodas e a comida nas pedras e conchas. Ou seja, o valor de £250 que se paga pela experiência nem cobre o que se consome. Não à toa eles estão tendo que racionar tudo e vender os pratos, pensei.


Enfim, caros leitores, foi uma experiência incrível e inesquecível para mim que nem bebo, imagina para vocês que bebem?! Recomendo para quem gosta muito de whisky, se interessa em especial pela Macallan e tem o tempo disponível para fazer, porque realmente toma quase o dia todo. Mas levem uns biscoitos no bolso.
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