As ‘bruxas’ da Escócia eram realmente bruxas?

A diferença entre as perseguições históricas por bruxaria, a bruxa do imaginário e a bruxaria moderna.

Quando escutamos a palavra “bruxa”, podemos estar pensando em coisas diferentes.

Podemos imaginar a mulher de chapéu pontudo diante de um caldeirão, preparando poções e lançando maldições. Podemos pensar nas milhares de pessoas perseguidas por bruxaria na Europa durante a Idade Moderna. Ou podemos pensar em pessoas que hoje se identificam conscientemente como bruxas e praticam Wicca, paganismo moderno ou alguma das diversas formas contemporâneas de bruxaria.

Usamos a mesma palavra para todas elas. E aí começa a confusão.

Apesar de estarem historicamente conectadas e de compartilharem símbolos e imagens, estamos falando de fenômenos muito diferentes.

De maneira bastante simplificada, podemos separar três coisas: a bruxa do imaginário; a pessoa acusada de bruxaria durante as perseguições históricas; e a bruxa moderna, que adota conscientemente essa identidade.

Entender essa diferença é importante principalmente quando falamos das pessoas perseguidas e mortas por bruxaria na Escócia.

Porque elas não eram, simplesmente, as “bruxas de antigamente”.

1. A bruxa do imaginário

A primeira bruxa é provavelmente aquela que todos nós conhecemos.

É a figura dos contos, das lendas, da literatura e, posteriormente, do cinema e da cultura popular.

Ela prepara poções em um caldeirão, conhece feitiços, lança maldições, comunica-se com forças sobrenaturais e talvez voe em uma vassoura. Essa imagem foi sendo formada durante séculos a partir de uma mistura complexa de folclore, crenças populares sobre magia, demonologia cristã, literatura, relatos de julgamentos, arte e, posteriormente, ficção. Alguns dos elementos que hoje parecem quase inseparáveis da imagem da bruxa têm origens diferentes e foram reunidos gradualmente.

E isso importa porque, na Europa da Idade Moderna, muita gente não considerava essas coisas simplesmente histórias. Acreditava-se seriamente que seres humanos podiam utilizar forças sobrenaturais para provocar doenças, matar animais, destruir colheitas ou causar outros tipos de infortúnio.

Entre as elites religiosas e jurídicas, desenvolveu-se ainda uma concepção mais elaborada da bruxaria: a ideia de que a bruxa estabelecia um pacto com o Diabo e obtinha dele seus poderes. Os historiadores Julian Goodare e Liv Helene Willumsen explicam que as crenças populares sobre magia maléfica e a demonologia das elites eram relacionadas, mas não idênticas: para muitas pessoas comuns, o problema central era alguém praticar magia contra outra pessoa; para os teólogos e autoridades, ser uma “bruxa” podia significar também uma relação espiritual e criminal com o Diabo.

É dentro desse universo mental que precisamos compreender as perseguições.

2. A “bruxa” histórica

Entre 1563 e 1736, período em que a legislação escocesa contra a bruxaria esteve em vigor, milhares de pessoas foram acusadas desse crime.

O Survey of Scottish Witchcraft, projeto acadêmico desenvolvido na University of Edinburgh, identificou 3.837 pessoas acusadas de bruxaria na Escócia. Os próprios pesquisadores ressaltam que esse número não representa necessariamente todos os casos que existiram, mas é considerado uma estimativa bastante próxima do total conhecido documentalmente.

Isso não significa que 3.837 pessoas tenham sido executadas. Uma acusação podia resultar em diferentes desfechos, e nem todos os processos chegaram ao julgamento ou à execução. A grande maioria das pessoas acusadas era formada por mulheres.

Mas é justamente aqui que precisamos resistir à tentação de substituir um estereótipo por outro.

 Elas eram curandeiras e mulheres sábias?

Existe uma interpretação muito popular atualmente segundo a qual as mulheres perseguidas como bruxas seriam principalmente curandeiras, parteiras, herbalistas ou mulheres que preservavam secretamente conhecimentos religiosos pagãos. Mas essa ideia não corresponde ao que os registros escoceses mostram.

No levantamento da University of Edinburgh, apenas 9 pessoas aparecem profissionalmente identificadas como parteiras, e práticas relacionadas à obstetrícia aparecem nas acusações contra apenas 10 pessoas. A cura popular era mais frequente, mas ainda assim aparece relacionada a somente 141 acusados — cerca de 4% do total registrado.

Isso não significa que práticas mágicas ou curativas não existissem. Como sempre na história do mundo, existiam pessoas que ofereciam curas, charms, adivinhações ou outras formas de magia popular. Há casos documentados claramente identificados dessa maneira. John Philip, por exemplo, aparece nos registros do Survey como um praticante de folk healing e “white magic” (e percebam que é um homem, o que também ajuda a quebrar o estereótipo dominante).

Transformar esses pouco casos em uma explicação geral para a caça às bruxas cria uma narrativa histórica que as evidências não sustentam. A pessoa típica acusada de bruxaria na Escócia não era uma curandeira perseguida por possuir conhecimentos proibidos.

E elas eram pagãs?

Outra ideia muito difundida é que as mulheres perseguidas seriam participantes de uma religião pagã antiga que teria sobrevivido clandestinamente à cristianização da Europa.

Essa hipótese chegou a ter considerável influência no século XX, principalmente através dos trabalhos da egiptóloga Margaret Murray. Ela argumentou que os julgamentos de bruxaria preservariam evidências de uma antiga religião de fertilidade pré-cristã praticada secretamente na Europa. A teoria teve enorme impacto cultural e influenciou inclusive algumas concepções iniciais da bruxaria moderna mas acabou sendo rejeitada pela historiografia posterior.

O estudo sistemático dos processos judiciais mostrou que não existe evidência de uma religião organizada de bruxas pagãs sobrevivendo secretamente pela Europa e sendo descoberta pelos inquisidores ou pelas autoridades civis. Isso não significa que tradições populares anteriores ao cristianismo não tenham sobrevivido de diferentes maneiras, nem que elementos folclóricos não apareçam nos processos. Significa apenas que isso é muito diferente de afirmar que as pessoas acusadas pertenciam a uma religião pagã clandestina organizada.

Na Escócia da Idade Moderna, a sociedade era profundamente cristã. As próprias pessoas acusadas de bruxaria faziam parte desse universo cultural e muitas delas provavelmente acreditavam na existência de bruxas e as temiam tanto quanto os outros.

Então como alguém se tornava uma “bruxa”?

Muitas acusações surgiam de situações surpreendentemente cotidianas. Uma discussão entre vizinhos. Uma ameaça feita durante uma briga. Uma doença. Um animal que morria. Uma criança que adoecia. Uma colheita perdida. Depois de algum conflito, acontecia uma desgraça. E alguém estabelecia uma relação entre as duas coisas. Por ex: “Ela disse que eu me arrependeria… e três dias depois minha vaca morreu.” Dentro de uma sociedade em que a possibilidade de magia maléfica era considerada real, essa sequência podia ser interpretada de maneira completamente diferente da que interpretaríamos hoje.

Documentos dos julgamentos escoceses registram repetidamente conflitos de vizinhança seguidos por acusações de malefício. Um caso de 1644 envolvendo Marion Pardoun, em Shetland, por exemplo, contém diversos relatos de brigas entre vizinhos seguidas por alegações de doenças humanas ou animais provocadas por bruxaria. Os documentos também mostram algo importante: muitos desses conflitos originalmente haviam terminado em reconciliação. Nem toda acusação, evidentemente, começava dessa maneira.

Houve ondas inteiras de perseguição nas quais uma pessoa acusada denunciava outras, criando verdadeiras reações em cadeia. Em Alloa, entre 1658 e 1661, por exemplo, uma sequência de acusações acabou envolvendo pelo menos 27 suspeitos. Pelo menos 16 chegaram a julgamento, sete foram executados e outra pessoa morreu na prisão.

As perseguições também apresentavam enormes diferenças regionais e temporais.

O Survey of Scottish Witchcraft identifica grandes ondas de acusações em 1590-91, 1597, 1628-30, 1649 e 1661-62, mas ressalta que elas não ocorreram de maneira uniforme em toda a Escócia. Durante a grande perseguição de 1661-62, por exemplo, pelo menos 660 pessoas foram publicamente acusadas em apenas dezesseis meses.

Portanto, reduzir toda a perseguição a uma única explicação — misoginia, pobreza, religião, conflito social, medicina popular ou qualquer outra — também seria simplificar demais um fenômeno histórico complexo. Todos esses elementos podem aparecer mas de forma diferente em lugares, períodos e casos diferentes.

A acusação não era uma identidade

Talvez este seja o ponto mais importante de toda essa discussão.Quando um documento histórico chama alguém de “witch”, isso não significa necessariamente que estamos diante de alguém que dizia ser bruxa ou que acreditava que era uma ou, ainda mais: que era de fato uma. Hoje estamos acostumados a pensar em “bruxa” como uma possível identidade pessoal ou espiritual. Mas nos processos históricos essa era uma identidade atribuída de fora.

Uma pessoa tornava-se “bruxa” porque vizinhos, ministros religiosos, investigadores ou tribunais passaram a interpretá-la dessa maneira.

Isso também explica por que devemos ter cuidado quando romantizamos essas mulheres dizendo que eram “bruxas de verdade”. Mesmo quando a intenção é homenageá-las, podemos acabar transformando a acusação que lhes foi imposta em uma descrição daquilo que realmente eram.

3. A bruxaria moderna

E então chegamos à terceira coisa que hoje chamamos de bruxaria: a bruxaria moderna.

Atualmente existem pessoas que conscientemente se identificam como witches ou bruxas e que praticam diversas formas de espiritualidade, magia ou paganismo. Não existe uma única “bruxaria moderna”. Há Wicca, tradições neopagãs, práticas de folk magic reconstruídas, formas de witchcraft secular, espiritualidades ligadas à natureza, tradições familiares e inúmeras combinações individuais. Cristais, tarot, ervas, divinação, astrologia, altares, correspondências mágicas, ciclos lunares e rituais podem fazer parte dessas práticas mas não necessariamente todos ao mesmo tempo e nem para todos os praticantes.

A Wicca, por exemplo, é uma religião neopagã específica dentro desse universo mais amplo. Sua forma moderna surgiu principalmente na Grã-Bretanha durante o século XX e está fortemente associada a Gerald Gardner, que publicou Witchcraft Today em 1954 e teve papel decisivo na expansão do movimento.

A bruxaria contemporânea, porém, tornou-se muito mais diversa do que a tradição gardneriana, e  suas fontes também são diversas. Ela pode incorporar elementos provenientes de magia cerimonial ocidental, folclore, movimentos ocultistas dos séculos XIX e XX, reconstruções de religiões pré-cristãs, práticas populares, espiritualidades orientadas para a natureza e interpretações contemporâneas de tradições antigas. Por isso, dizer que a bruxaria moderna é simplesmente “a mesma religião que as bruxas praticavam antes das perseguições” cria uma continuidade histórica que não conseguimos demonstrar.

Isso não torna a prática moderna menos válida como religião ou espiritualidade. Tradições culturais e religiosas não precisam existir de forma inalterada há milhares de anos para terem significado para quem as pratica. Religiões mudam. Símbolos são reinterpretados. Tradições são recuperadas, reconstruídas e reinventadas.

O problema aparece quando uma tradição moderna é projetada retrospectivamente sobre pessoas do passado e apresentada como uma descrição histórica delas.

Três bruxas, três coisas diferentes

É por isso que talvez seja útil pensar nessas três figuras separadamente.

A bruxa do imaginário é uma personagem construída durante séculos por folclore, religião, medo, arte, literatura e fantasia.

A “bruxa” histórica é uma pessoa que, durante as perseguições, foi identificada e acusada por outras pessoas de possuir poderes mágicos ou de manter relações com forças demoníacas.

A bruxa moderna é alguém que conscientemente utiliza essa palavra como identidade espiritual, religiosa ou prática.

Essas três figuras não existem em universos completamente separados. A bruxaria moderna reutiliza e reinterpreta símbolos antigos. A cultura popular foi profundamente influenciada pelos julgamentos históricos. E os próprios julgamentos foram influenciados por crenças e narrativas anteriores sobre magia. Ou seja, existe uma longa história conectando tudo isso. 

Mas conexão não significa equivalência. A mulher do século XVII acusada de matar a vaca do vizinho através de magia não é simplesmente uma versão antiga da pessoa que hoje tira tarot, trabalha com ervas ou celebra os ciclos da natureza. E a pessoa que hoje se identifica orgulhosamente como bruxa não está necessariamente reivindicando literalmente as práticas atribuídas às acusadas durante os julgamentos.

São fenômenos diferentes que, por razões históricas fascinantes, acabaram compartilhando a mesma palavra.

Para pesquisar mais:

Uma das melhores fontes para quem quer entender a perseguição às bruxas na Escócia é o Survey of Scottish Witchcraft, projeto desenvolvido por Julian Goodare, Lauren Martin, Joyce Miller e Louise Yeoman na University of Edinburgh. O banco de dados reúne informações sobre quase quatro mil pessoas acusadas de bruxaria na Escócia entre 1563 e 1736 e permite pesquisar casos, acusações, julgamentos e características sociais dos acusados.

Para aprofundar o assunto, a própria equipe do projeto recomenda obras de historiadores como Christina Larner e Julian Goodare.

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Clootie Wells: os poços sagrados da Escócia

  1. Maria Helena Balbino de Carvalho

    Maravilhosa essa descrição que li sobre o assunto. Gostaria muito ter conhecido ou feito uma leitura tão interessante ainda quando trabalhava subiu o assunto ao dar aulas de história. Quanto hoje a gente sabe muito mais sobre os assuntos do que há uns 30 anos atrás. Parabéns pela sua dedicação e continue assim sempre presente e perseverante. Obrigado por compartilhar ❤️

  2. Aldenice Santos Cabral

    Gostei da leitura
    Achei bem explicativa

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